Ligação
Já estava na quinta tentativa de fechar a porta, mas nada a ajudava. Respirou fundo, olhou a fechadura e desistiu. Estava no seu limite.
Se sentou no sofá e encarou a velha porta entreaberta. Toda vez conseguia arrumar aquele pequeno problema, porém, desta vez, foi vencida. Resmungou baixinho.
Deixou de lado a porta o restante do dia, não sairia de casa, então não teria preocupação em deixá-la aberta durante o dia, o problema seria à noite, mas seu filho a ajudaria nessa questão.
Se levantou e foi para os afazeres de casa, encostando a porta e colocando seu peso de porta velho em formato de coelho. Sorriu para o acessório e seguiu para a cozinha.
Passou todo o dia arrumando casa, preparando jantar, tudo o que achava necessário fazer, claro, sempre analisando a
porta. Mas estava tudo em ordem, então ela voltou para suas tarefas, que levaram o dia todo a serem concluídas.
Quando o sol já se despedia, seu filho chegara.
Ao entrar, abraçou sua mãe, contando como foi a escola. A mulher ouviu atentamente cada palavra, cada acontecimento. Conversaram por um tempo, mas antes de o menino ir para seu quarto, sua mãe pediu para olhar novamente a porta. Antes de fazer tal pedido, foi para seu banho e logo estava de volta.
Em sua mão destra, estava uma chave de fenda e em sua mão canhota, alguns pequenos parafusos. Pegou uma cadeira da cozinha e se sentou de frente para a porta, encarando a maçaneta e entrada da chave. Olhou por alguns minutos, tentando achar o problema persistente.
Desmontou. Montou. Testou.
O problema que ele sempre resolvia, agora não conseguia.
Testou por mais duas vezes.
Enquanto observava seu filho tentar consertar o problema, como um relâmpago, se lembrou de seu amigo chaveiro, que entendia sua situação financeira e sempre lhe cobrava de maneira que pudesse pagar sem preocupação. Rosa balançou a cabeça, se sentindo idiota. Sorriu.
Se levantou e seguiu até a mesa de telefone para pegar sua agenda.
Folheou até a página de nomes com a inicial H e ao encontrar, percorreu seu dedo indicador até encontrar o nome de seu amigo: Hailton.
Sorriu.
— Me lembrei do Hailton, filho! Deixa que vou perguntar se ele pode nos ajudar novamente. Bom que vejo ele de novo, tem dois anos que não converso com ele — disse pegando o telefone.
Começou a discar número por número com cautela para não errar. Por fim, apertou para ligar.
Após uma breve espera, a ligação foi atendida.
— Chaveiro do Hailton, boa tarde! Em que posso ajudar? — disse no automático.
— Hailton! Quanto tempo! Você sumiu, como está? É a Rosa que está falando — disse animada ao ouvir a voz de seu amigo.
— Rosa! Estou feliz em te ouvir, faz muito tempo mesmo — respondeu de maneira direta.
— Como estão as coisas por aí, querido amigo? — perguntou sorridente.
— Estão tudo bem, e por aí, Rosa? Alguma novidade? — perguntou sem mudar seu tom.
Rosa silenciou por alguns minutos por vergonha de pedir para arrumar a porta novamente. Olhou para a parede, suspirou e respondeu:
— Por aqui está tudo bem também, meu amigo — pausou antes de pedir o favor. — Então, lembra daquela porta que sempre me deu dor de cabeça? Estou com problemas de novo e meu filho não consegue consertar por nada. Você tem algum dia livre para vir arrumar? Só me falar o valor que eu pago — perguntou, ficando logo em silêncio, sentindo vergonha.
— Claro, Rosa! Posso ir amanhã às 10h? É o único horário que tenho — respondeu sem expressão nenhuma.
— Nossa, muito obrigada mesmo! Você sempre me salvando! — respondeu com um enorme sorriso em seu rosto.
— Não precisa agradecer, querida. Amanhã estarei por aí, não se preocupe. Agora preciso desligar. Fique bem — disse em um tom mais simpático.
— Até amanhã, Hailton! Obrigada de novo.
Quando a chamada foi finalizada, Rosa olhou para seu filho.
— Não precisa mais tentar arrumar, amanhã Hailton vem nos salvar de novo. Obrigada, meu filho! — disse dando um beijo na testa do menino e saiu em direção à cozinha.
O menino persistiu por alguns minutos, para ele, era um desafio. Tentou por quase vinte minutos e desistiu. Colocou o coelho na porta e foi para seu quarto.
No cair da noite, Rosa colocou uma cadeira para intensificar a segurança. Era uma
cadeira barulhenta, se alguém tentasse entrar, eles ouviriam.
Depois de verificar a segurança da porta, Rosa seguiu para seu quarto.
Dormiu quase instantaneamente.
Acordou antes do despertador e se levantou imediatamente. Fez sua rotina matinal e foi para a cozinha. Queria preparar um café caprichado para seu amigo, que não via há dois anos.
Preparou o de seu filho primeiro, deixando exatamente como ele gosta. Quando tudo estava arrumado na mesa, foi chamá-lo, que apareceu após dezesseis minutos, completamente sonolento.
Se sentindo, desejou bom dia à sua mãe e com sua sonolência, tomou café.
Rosa, sentou de frente para seu filho, animada. Estava ansiosa para rever seu grande
amigo. Mal poderia esperar para o relógio indicar 10h.
Conversaram até o menino finalizar seu café da manhã, que retirou da mesa o que utilizou e lavou. Beijou a testa de sua mãe e seguiu para seu quarto.
Pegou a mochila e saiu.
Rosa ficou na sala assistindo tevê, esperando seu amigo. Colocou em um programa que estava abordando sobre crochê, seu passatempo favorito.
Cochilou. Acordou às 09h50.
Se levantou às pressas e foi para a cozinha ter a certeza de que tudo estava organizado. Ajeitou uma coisa ali, uma aqui, e voltou para a sala olhando para o relógio.
O som do “tic-tac” indicava que o tempo estava passando e o momento se aproximando.
Sabendo que ele sempre foi pontual, abriu a porta quando deu o horário do combinado. Rosa se encostou no batente e ficou observando cada pessoa passando.
Conforme o tempo passava, ela estranhava a demora de seu amigo.
Esperou por mais um tempo. Quando percebeu, já se passavam trinta minutos. Então resolveu ligar para o trabalho dele.
— Chaveiro Silva, boa tarde! Em que posso ajudar? — respondeu uma mulher muito simpática.
Rosa estranhou o nome do lugar, achando que ligou errado, e mais ainda uma mulher atender. Mas achou que poderia ser uma funcionária.
— Boa tarde. Tudo bem? Eu gostaria de falar com o Hailton. Marquei com ele para vir às 10h arrumar minha porta, mas até agora não
apareceu. Ele ainda vem? — perguntou se sentindo confusa.
— Está de brincadeira, né, senhora? Você sabe o que está falando, por acaso? — perguntou de forma ríspida.
— Como assim? Eu liguei para ele ontem à noite e combinamos de ele vir arrumar minha porta. Não estou entendendo — respondeu aflita.
— Qual horário a senhora disse que ele iria? — perguntou com a voz trêmula.
— Combinamos às 10h — seu tom de voz era de confusão.
— Senhora, eu sinto em lhe informar, mas ele morreu há dois anos — pausou, engolindo seco, prestes a chorar — e morreu exatamente às 10h — ficou em silêncio após anunciar.
— Está falando sério? — perguntou sentindo lágrimas se formarem nos olhos.
— Estou, senhora — respondeu em um tom choroso.
Naquele momento, Rosa não ouvia mais nada. Desligou o telefone sem se despedir. A notícia a pegou em cheio, pois esperava tudo, menos o falecimento de seu amigo.
Ficou sentada por alguns minutos, encarando a porta aberta, com a maçaneta inclinada para frente, quase caindo. Seu olhar focava apenas nela, como se ali tivesse alguma mensagem sobre seu amigo.
O telefone tocou alguns minutos depois, mas Rosa não atendeu, ficou paralisada, tentando absorver que, dali em diante… nunca mais veria seu amigo.
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