Memória Oculta

 Era uma manhã fria e nublada. O casal organizava o quarto. A mulher reorganizava as gavetas do guarda-roupa, dobrava peça por peça de forma sistemática; tinha de ser exatamente do mesmo jeito em todas as peças.

Foi assim em todas as gavetas, indo para os cabides, organizando por cores. Tanto suas roupas quanto as de seu marido.

Seu marido sempre ficava encantado com o arco-íris formado pelas roupas. Deu risada. Marieta se virou em direção a ele e entendeu o motivo do riso. Riu junto.

— Eu sei que você gosta dessa variedade de cores — disse ajeitando a última peça do cabide.

— Eu amo tudo o que você faz, meu amor — respondeu sorrindo para sua esposa.

Marieta sorriu.

Quando terminou, foi para a cômoda, mas dessa vez precisaria da ajuda de Ricardo. Queria muito participar do arco-íris.

Marieta retirou todas as peças de todas as gavetas, as colocando na cama, e o homem entregava peça por peça de acordo com a cor que ela pedia. Assim, ele foi a ajudando, cor por cor, se encantando. Uma cor por gaveta. Vermelho, laranja, amarelo, azul, roxo e verde. A mulher obrava com muito cuidado, atenciosa a cada detalhe.

A tarefa dele era colocar nas gavetas, também sendo super cuidadoso. Colocava e ajeitava.

Gavetas organizadas.

Marieta deu um beijo na testa de seu amado e agradeceu pela ajuda. Sentada na cama, percorreu seus olhos por todo o seu quarto para ter a certeza de que nada passou. 

Quando seus olhos voltaram ao guarda-roupa, lembrou-se de que há muito tempo não organizava a parte de cima dele.

Se levantou, abriu novamente todas as portas e olhou com atenção a parte superior. Muitas sacolas e caixas: um universo de mistérios.

Olhou mais uma vez e decidiu.

— Querido, eu já volto!

Seguiu em direção à cozinha, dando passos cautelosos. Olhou a panela em que preparava sopa e desligou. Foi até um dos armários para retirar um saco de lixo, por fim, pegou uma das cadeiras e voltou para o quarto.

— Vamos arrumar a bagunça de cima? — perguntou enquanto posicionava a cadeira.

— Nossa, eu nem me lembrava dessa parte. Vamos sim, meu amor — exclamou com curiosidade.

Marieta colocou o saco sobre a cama, próximo a si, subindo cuidadosamente na cadeira. A função de Ricardo seria colocar as caixas na cama.

Naquele compartimento havia três caixas médias de papelão e duas sacolas amontoadas. Completamente cheias de memórias.

Primeira caixa. Ao pegá-la, se abaixou ao máximo para que sua esposa não fizesse muito esforço, a caixa não estava muito pesada, sendo tranquila para ambos.

Desceu e a ajudou.

Antes de puxar a última aba da caixa, já soube o que era: roupas. A primeira peça era um vestido verde-claro, foi usado uma única vez, no natal em que revelou sua primeira gravidez. Então se lembrou de que ali estavam peças de roupas usadas em momentos importantes. Sorriu emocionada, relembrando daquela ocasião. Com todo cuidado e carinho, dobrou o vestido.

Retirou a próxima peça.

Vestido longo e rosa. Usou em sua formatura da faculdade, um sonho realizado. Relembrou com detalhes junto a seu marido, que se emocionava a cada detalhe dito, seus olhos brilhavam. Ele adorava ouvir sua amada contando histórias.

Mais uma peça em mãos. Um conjunto amarelo de moletom usado em uma das comemorações de seu aniversário, quando teve a visita surpresa de sua irmã, que se ausentou por dois anos. Relembrou.

Mais uma lembrança.

— Esse aqui me lembro muito bem — disse, olhando para o item em suas mãos, sorrindo. — Nosso querido neto usou no ano em que nasceu — suspirou.

Em suas mãos, estava uma roupinha vermelha com vários papais-noéis estampados. 

— Pedro ficou uma graça nela! Com certeza encontraremos foto desse dia — sorriu enquanto dobrava.

— Ele ficou uma preciosidade nessa roupa, ficou tão delicado — Ricardo estava emocionado.

Sorriram e se abraçaram.

Encontrou também seu uniforme do trabalho de muitos anos: seu jaleco de enfermeira. Manteve-se nessa profissão por anos, aposentou-se para cuidar de seu amado marido.

Ricardo sorriu emocionado, todo feliz e orgulhoso. Abraçou sua amada. A cada peça retirada, era uma lembrança.

Limpou as lágrimas e olhou peça por peça, as dobrando perfeitamente.

Deixaram a caixa em um canto e Ricardo apanhou a próxima.

Na segunda caixa, havia itens de decoração para datas comemorativas. Marieta retirou todos os itens. Quando viu um festão branco, lembrou-se de um dos natais mais lindos. Olharam rapidamente e seguiram a próxima recordação.

A próxima havia livros de medicina, que Marieta usava nos estudos, e outros temas que o casal lia para passar o tempo. Romance, comédia, suspense e drama. Os favoritos deles.

Reorganizaram, decidindo descartar os de medicina para passar adiante. Colocaram os livros em um canto do quarto e voltaram ao guarda-roupa.

Agora sobraram as sacolas. Nelas, tinha apenas lençóis e fronhas que usavam raramente.

Com cuidado, Ricardo tirou a primeira sacola, a entregando cautelosamente para a esposa, que colocou na cama quase cheia. Seu marido pegou a próxima sacola.

Surpresa.

Atrás das sacolas estava um grande álbum de fotos. Estava intacto, parecia intocável. Caiu no esquecimento.

Marieta olhou para seu marido sem acreditar na situação. Ricardo ainda olhava para o álbum, se perguntando como não tinha visto ele ali.

Entregou a segunda sacola à sua esposa e retirou o álbum, olhando atento. Abaixou para que Marieta pegasse. Ao abrir, encontraram apenas uma folha em branco. Mas, a partir dela viriam as fotos esquecidas.

Próxima página.

Tinha quatro fotos em preto e branco. A primeira foto era dos pais de Marieta, estavam em uma plantação. Abraçados e sorridentes. A mulher usava um vestido abaixo dos joelhos com babados. Olhava para a câmera com um enorme sorriso. O homem, também muito sorridente, usava uma roupa social em tons claros, combinando com sua amada.

Atrás do casal parecia uma grande plantação, não dava para identificar do que, e Marieta não se lembrava. Sentiu saudades, sentiu vontade de abraçá-los. Suspirou.

Na foto ao lado, havia muitas pessoas, a família reunida! Junto de seu esposo, relembrou de cada pessoa que pousava para a câmera. Desde familiares até amigos, lembraram-se de todos, contando alguma ocasião especial que passaram juntos.

Na outra foto, eram os pais de Ricardo. Sentados em um balanço de madeira, sorrindo timidamente. A mãe envolvia seu braço direito nos largos ombros do marido. Estavam na área de casa.

Lágrimas. Suspiro.

Marieta acariciou os cabelos brancos de seu amado, confortando-o.

As outras duas fotos eram apenas de paisagens da fazenda dos pais da mulher. Um imenso verde com alguns pontos amarelos, os milhos que se destacavam naquela imensidão.

Foi para a próxima página.

Marieta olhou brevemente as cinco fotos. Em uma delas, havia uma grudada, quase imperceptível. Ela passou levemente o dedo indicador e realmente tinha mais uma. Agora, observava atentamente as fotos.

Tios, avós, primos dos tios, amigos da família, todo mundo reunido.

Diferente dela, Ricardo não notara a foto extra daquela página, estava hipnotizado com aquelas fotos. Olhou para sua esposa com lágrimas nos olhos e sorriu.

— Nessa foto em que nossos pais estão juntos, a minha mãe já estava grávida de mim — falou com o dedo indicador apontando para a terceira foto.

Juntos, se emocionaram.

Passaram alguns minutos comentando sobre cada foto, cada detalhe que captavam nas imagens, mergulharam nas lembranças que os pais contaram na infância.

Quando Marieta estava virando a página, a foto colada caiu no chão com a imagem para baixo, deixando ainda mais o mistério no ar. Ao se abaixar para pegá-la, foi impedida pelo seu marido. De repente o clima ficou estranho, algo os incomodava. Ricardo se abaixou e pegou a fotografia. Quando foi devolver no lugar, Marieta arrancou da mão e virou. Os dois se encararam em silêncio. Os corpos arrepiados.

Olharam para a foto, entendendo que foi um hábito estranho, que não deveria ter existido naquela época. Cada detalhe observado naquela imagem causava mais incômodo aos dois.

— Naquela época parecia ser um gesto bonito — sussurrou Marieta.

— Realmente parecia. Até nos emocionávamos.

Marieta concordou com a cabeça enquanto olhava para aquela fotografia, sentindo-se estranha. Tentou apenas focar na pessoa, lembrando dos poucos anos que estiveram juntos.

Ricardo mal olhava, considerava muito bizarro, estranho e não entendia como pensaram ser uma boa ideia.

Assim como algumas famílias do século passado, as do casal — que eram extremamente unidas — também fizeram parte da cultura do post mortem, que consistia em tirar foto de uma pessoa falecida para servir como recordação.

Diante dos olhos deles, estava a fotografia do tio falecido. Já estava muito envelhecida, o que deixava mais incômodo. O homem sentado em uma poltrona branca, o corpo rígido. Sua feição transparecia uma certa felicidade, o que condizia com como ele foi em vida: feliz e brincalhão.

O casal olhou alguns segundos a mais aquela fotografia. Apenas com olhares concordaram em guardá-la em outro lugar que nem mesmo eles teriam fácil acesso.

Olharam as demais fotos, sentindo-se mais leves.

A tal fotografia nunca mais foi vista.

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